A pilhagem anglo-saxã une a África à América Latina

Eduardo Jorge Vior para o Blog Saker Latinoamérica e Telam – 07 de novembro de 2022

  À revelia dos danos, o Canadá e os EUA estão realizando uma estratégia de guerra através do Atlântico para não perder o controle sobre os minerais críticos essenciais para a mobilidade elétrica.

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O Canadá não se descuida sobre a expansão da mineração no continente americano.

Por mais de um século, o petróleo foi a principal fonte de geração de energia. Muitas guerras e milhões de mortes são justificadas pela predominância desta fonte energética. Foi útil, pois o Ocidente soube tirar proveito de seu controle sobre as regiões produtoras e garantiu a competitividade de sua indústria. A globalização das décadas de 1970 a 1990 foi financiada pelo petróleo barato e pelo investimento financeiro de seus proprietários na economia atlântica, mas quando a China ultrapassou a produtividade ocidental, a América do Norte e o Noroeste da Europa decidiram abandonar a globalização.

As potências ocidentais decidiram, então, fechar sua área hegemônica a qualquer competição eurasiana. Primeiro, romperam com as cadeias produtivas globais aproveitando a pandemia de Covid19 (2020-21); e logo foram alavancadas na atual guerra mundial. Este fechamento é especialmente evidente na competição por minerais críticos que são essenciais para a transição para a mobilidade elétrica, que é cada vez mais confrontada com critérios militares.

Ao se fechar, o Ocidente desenhou um novo mapa da economia atlântica determinado pelos componentes das novas fontes de energia. Nas baterias recarregáveis, são utilizados lítio, níquel, cobalto, grafite, manganês, alumina, estanho, tântalo, magnésio e vanádio, em várias proporções, dependendo da tecnologia aplicada. Com exceção do lítio, concentrado sobretudo no triângulo entre Argentina, Bolívia e Chile, o Brasil ocupa o terceiro e o quinto lugar no mundo em reservas dos demais minerais. Não obstante, a anarquia e o desgoverno causados por quase 30 anos de guerra ininterrupta tornam muito barato saquear as reservas da África Oriental. Sangue africano e ouro branco dos Andes são peças complementares da nova estratégia transatlântica de dominação na qual as mineradoras canadenses desempenham um papel central.

O presidente da República Democrática do Congo (RDC, capital Kinshasa), Félix Tshisekedi, convocou quinta-feira [03/11/22] a 3ª mobilização geral e da juventude para formar milícias, para enfrentar a ameaça dos terroristas do M23. Trata-se de um grupo guerrilheiro tutsi que atua há anos no leste do país com o apoio do vizinho Ruanda e que nos últimos meses retomou a sua atividade com particular virulência.

Na semana passada, os rebeldes assumiram o controle de dois outros grandes assentamentos no leste do Congo, dobrando assim a área sob seu controle. O contingente da ONU localizado na província de Kivu do Norte (fronteira com Ruanda e Uganda) retirou-se sem intervir, causando pânico entre a população civil que mais tarde se transformou em protestos espontâneos em muitas cidades do país, com bandeiras russas e retratos de Vladimir Putin.

Agora, os destacamentos do M23 estão a apenas 30 km da cidade de Goma, capital da província. Para o grupo, trata-se de um objetivo importante pela proximidade com o Ruanda, de onde se abastece, e pela posição de força que adquiriria perante o governo central, mas este já anunciou que não pretende negociar e o conflito durará muito tempo.

Com 3,6 milhões de toneladas (70% do total), a República Democrática do Congo possui as maiores reservas de cobalto do mundo, mineral essencial para a produção em massa de baterias elétricas. É também o terceiro maior produtor de cobre, com 1,8 milhão de toneladas por ano. Quase todo o cobalto do país vem de depósitos de cobre. Além disso, existem grandes reservas que ainda não foram exploradas com tecnologia moderna, de modo que os estoques podem ser muito maiores.

Embora outros fatores também desempenhem um papel, esses recursos naturais explicam grande parte dos confrontos entre grupos armados que assolam o leste do país há quase 30 anos. Apesar dos repetidos cessar-fogos, especialmente nos últimos meses, o que o presidente congolês chama de a “guerra econômica por recursos” agravou-se na região.

Pela primeira vez desde a independência em 1960, em janeiro de 2019, ocorreu uma transferência pacífica de poder. Como resultado de eleições consideradas fraudulentas pelos observadores, Félix Tshisekedi sucedeu a Joseph Kabila (2001-19). Após um ano de lutas internas na coalizão governamental entre os blocos parlamentares do antigo e do novo presidente, desde meados de 2020 o novo presidente conseguiu reduzir a influência de seu antecessor.

Já o M23 (de “Movimento 23 de Março”) é um antigo grupo rebelde tutsi que retomou às armas no final do ano passado, culpando Kinshasa por não ter respeitado os acordos que permitiram a sua desmobilização em 2013. Por sua vez, o governo congolês acusa seu vizinho ruandês de apoiar os rebeldes.

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Os presidentes da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi (à esquerda), e de Ruanda, Paul Kagamé (à direita).

Após vários picos de ataques e deslocamentos forçados no início de 2021, o governo central declarou estado de sítio no leste do país, substituindo administradores civis em Kivu do Norte e Ituri por governadores militares. Enquanto isso, uma guerra está sendo travada em Kivu do Sul envolvendo forças de Burundi e Ruanda, bem como grupos rebeldes congoleses. Por fim, desde o início de 2022, o retorno do M23 desestabilizou ainda mais a região.

Por trás do conflito está o roubo dos recursos minerais do Congo. O principal sindicato é o governo de Ruanda, apoiado pelos EUA e estreitamente associado às empresas de mineração ocidentais. Este ano, um relatório da Global Witness estimou que 90% do coltan (principal fonte de tântalo), estanho e tungstênio exportados por Ruanda são contrabandeados da RDC. Muitos apontam o presidente ruandês Paul Kagamé como o principal responsável pelo saque das riquezas congolesas, saque que é facilitado pelo intenso intercâmbio entre os dois países nos setores agrícola, comercial e de serviços, às vezes em uma direção, porque a RDC é não está em condições de satisfazer as suas necessidades básicas.

Com uma economia em expansão (crescimento médio anual de 6,4% entre 2012 e 2021), embora dependente de investimentos e subsídios estrangeiros, segundo dados oficiais, os subsídios internacionais representam 16,1% da receita no orçamento de 2021-22. Ruanda rejeita as acusações feitas contra ela pela RDC e procura manter fortes relações com a comunidade internacional. É por isso que Kigali espera que a mediação da Comunidade da África Oriental (EAC – East African Community – nota da tradutora) impeça a escalada do conflito e interrompa o funcionamento das indústrias extrativas na RDC.

No entanto, o governo ruandês parece ter perdido o apoio incondicional de seus aliados ocidentais. O presidente Paul Kagamé (no governo desde 2000) é fortemente criticado pela imprensa africana. Este fundador da Frente Patriótica Ruanda (RPF), ex-guerrilheiro treinado pelo Exército dos Estados Unidos na década de 1970 em Fort Leavenworth, Kansas, provocou o massacre em 1994 no qual 800.000 membros de seu povo tutsi foram mortos, pois, depois de participar em 1998 na Segunda Guerra do Congo, tomou o poder em Kigali. Desde 2000 governa o seu país de forma ditatorial e, graças ao apoio ocidental, aos seus próprios negócios e à pilhagem das riquezas do Congo, mantém uma economia em crescimento em termos de PIB e um país ordenado.

O fim da globalização e a guerra mundial em curso estão mudando rapidamente os alinhamentos na África. As nações do oeste e centro do continente estão cada vez mais se afastando das antigas potências coloniais da França e Reino Unido e se aproximando da Rússia e da China. Enquanto, ao mesmo tempo, o Ocidente corre atrás da China na transição para a energia limpa, as potências ocidentais, especialmente os EUA e o Canadá, defendem ferozmente seu domínio sobre os minerais estratégicos da África e não hesitam em acirrar os confrontos.

O preço de muitos minerais importantes disparou após o início da guerra na Ucrânia. A economia russa detém 7% da oferta mundial de níquel, 10% de platina, 20% de titânio e 25% de paládio. O preço destes metais e outros, como alumínio, cobalto e cobre, subiu em março de 2022, para estabilizar-se nos meses seguintes, embora em muitos casos com preços acima do normal.

Em sua Estratégia de Minerais Críticos, o Canadá incorporou alguns dos minerais mais flutuantes. Com um orçamento de 3,8 bilhões de dólares, foi anunciado pelo governo de Justin Trudeau em 2021, para garantir o abastecimento de “aplicações de energia renovável e tecnologias limpas” e garantir a primazia econômica do Canadá nas áreas de “tecnologias de defesa e segurança, eletrônica de consumo, agricultura, aplicações médicas e infraestrutura crítica”.

Embora o governo canadense continue a apoiar a extração desses minerais internamente, nas últimas décadas a indústria de mineração do Canadá assumiu uma orientação cada vez mais global. A América Latina tem sido historicamente a região mais lucrativa para as mineradoras canadenses, mas recentemente as administrações de Biden e Trudeau destacaram o papel da África como um fornecedor cada vez mais importante.

No continente africano, a falta generalizada de regulamentações ambientais adequadas torna os projetos de mineração mais baratos, e os políticos canadenses estão ansiosos para manter e expandir o acesso a minerais críticos naquela região do globo. Além de garantir seu abastecimento, eles também aproveitam a neutralidade da maior parte da África para aumentar suas reservas minerais e obter vantagens comparativas sobre a Rússia e a China.

O capital canadense financia ou explora projetos de mineração em mais de 100 países e a extração cresce a cada ano. Em 2025, estima-se que o mercado global de mineração e minerais valha US$ 2,4 bilhões, representando uma taxa de crescimento anual composta de 7%. Esse crescimento só será alcançado com amplo apoio governamental, razão pela qual os governos ocidentais estão subsidiando e incentivando o investimento estrangeiro direto (IDE) na indústria de mineração.

Nas últimas décadas, o investimento em mineração canadense no exterior aumentou substancialmente, a ponto de os ativos de mineração offshore agora representarem 70% do valor total de todas as operações de mineração canadenses, ou US$ 188 bilhões. Na África, o valor total desses ativos de mineração canadenses é de US$ 36,5 bilhões.

Em 2020, 106 empresas de mineração de propriedade canadense estavam operando na África. Seus investimentos abrangem todo o continente, mas concentram-se principalmente em alguns países: Mali, Mauritânia, Burkina Faso, Gana, República Democrática do Congo, Tanzânia, Zâmbia e África do Sul. De todos esses países, a Zâmbia é o mais valioso para as empresas canadenses, com ativos avaliados em cerca de US$ 10 bilhões.

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Projetos de mineração canadenses na região.

Projetos de mineração canadenses na América Latina

Enquanto mantém o controle de suas reservas de mineração africanas, o Canadá não se descuida da expansão no continente americano e a exclusão de concorrentes. Em 28 de outubro, o governo federal publicou uma diretriz de política esclarecendo como o Investment Canada Act (ICA) se aplicará aos investimentos de empresas estatais estrangeiras (SOEs) no setor de minerais críticos. Esta política indica que os investimentos de empresas estatais estrangeiras em empresas canadenses de minerais críticos serão severamente supervisionados sob critérios de segurança nacional.

Esses investimentos já são altamente supervisionados e, desde 2009, o governo canadense tem o poder discricionário de bloquear ou cancelar tais empreendimentos – e, de fato, qualquer investimento – usando seus poderes de segurança nacional. Portanto, a recente declaração deve ser entendida mais como uma manifestação de vontade política do que como uma inovação jurídica.

Nos últimos anos, o Governo do Canadá prestou atenção especial aos minerais críticos. Já em janeiro de 2020, o Canadá e os Estados Unidos concordaram com um Plano de Ação Conjunta sobre Colaboração em Minerais Críticos e Ottawa publicou em março de 2021 a Lista de Minerais Críticos, que inclui 31 minerais.

Muitos deles já são produzidos no Canadá, mas outros podem ser extraídos por empresas canadenses no exterior cujas atividades em outros países também são regulamentadas pelo Estado. Em janeiro passado, por exemplo, o ministro da Indústria foi convocado perante a comissão da indústria no Parlamento Federal, para esclarecer por que o governo permitiu a aquisição de uma empresa canadense com ativos de lítio em Catamarca, Argentina (Neo Lithium) por uma empresa de mineração estatal chinesa (Zijin Mining), sem realizar uma revisão completa das implicações de segurança nacional. Note-se que a legislatura canadense assume o direito de autorizar ou não a venda de uma empresa canadense em território argentino, com base em critérios de “segurança nacional”, e nosso governo [o argentino] não disse nada a respeito.

De acordo com a declaração política de 28 de outubro, a fiscalização da aquisição de uma empresa canadense de minerais críticos por uma empresa pública estrangeira só ocorrerá em caráter “excepcional”. Isso não significa que nunca será aprovada, mas sim que provavelmente exigirá que sejam fornecidas amplas garantias de segurança.

Já sob o ICA, todos os investimentos de estrangeiros em empresas canadenses, incluindo investimentos minoritários e indiretos, independentemente do valor, estão sujeitos a uma possível triagem de segurança nacional. A declaração política também esclarece que as disposições de segurança nacional aplicam-se amplamente a toda a cadeia de suprimentos, incluindo entidades que estão envolvidas exclusivamente na exploração.

Na quarta-feira passada [02/11/22], o Canadá ordenou que três empresas chinesas desinvestissem em minerais canadenses críticos. Em resposta, Pequim acusou Ottawa de usar a segurança nacional como pretexto e violar o comércio internacional e as regras do mercado. As três empresas afetadas são Sinomine Rare Metals Resources Co Ltda (de Hong Kong), Chengze Lithium International Ltda, também com sede em Hong Kong, e Zangge Mining Investment Co Ltda (com sede em Chengdu).

A competição global por recursos minerais e metálicos vitais para tecnologias de energia limpa tornou-se estratégica, global e, como tal, parte da guerra em curso entre as potências do Atlântico e da Eurásia. Especialmente no campo da mobilidade elétrica, as potências ocidentais estão atrasadas em relação à China e tentam recuperar terreno bloqueando o acesso de empresas orientais a depósitos minerais estratégicos. Nesse campo de guerra, as corporações canadenses têm um papel central. Elas já assumiram o controle dos recursos argentinos e brasileiros e os administram como seus, mas, para impedir o avanço da China, também tentam manter o controle sobre as reservas africanas.

Para isso, elas não economizam sangue. Um único rio de sangue une os minerais estratégicos da África com o ouro branco dos Andes.

Será que algum dia se tornará um vínculo de cooperação para ajuda mútua?

Eduardo J. Vior é um veterano sociólogo e jornalista independente, especialista em política internacional, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Buenos Aires (UBA).


Fonte: https://sakerlatam.org/el-saqueo-anglosajon-une-a-africa-con-sudamerica


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